Cientistas do clima continuam a desenvolver e refinar modelos da mudança do clima, para poderem prever os efeitos das emissões de gases estufa. Um aspecto destes modelos que não foi explicitamente testado é sua capacidade de capturar mudanças rápidas e irreversíveis para a mudança do clima. O autor de um comentário na edição desta semana da revista Nature Geoscience argumenta que modelos atuais do clima (tais como os usados nos relatórios do Painel Intergovernamental Sobre a Mudança do Clima (IPCC) falham ao não conseguirem simular mudanças abruptas que vimos no passado, e que portanto podem não conseguir prever eventos semelhantes no futuro. 

Mudanças abruptas são aquelas onde a resposta (tal como um aumento ou diminuição de temperaturas globais médias) ocorre muito mais rápido que as mudancas nas condições que a provocaram (aumento de concentração atmosférica de gases estufa na atmosfera, influxo de água, no oceano, etc.). Para podermos planejar estratégias de mitigação ou adaptação, obviamente temos de poder prever a ocorrência e severidade de tais eventos. O autor do comentário é Paul Valdes, climatologista da Universidade de Bristol, Inglaterra, que considerou quatro casos passsados de mudança abrupta que modelos atuais não conseguem simular. Nos primeiros dois, os modelos não conseguem capturar as condições iniciais - se forem incorretas, elas pode significar resultados simulados inacurados. Nos dois outros casos, as simulações requerem perturbações irrealisticamente grandes para causar as mudanças que realmente ocorreram no passado. Todos os casos parecem indicar que os modelos atuais são estáveis demais comparados ao sistema relativamente sensível do sistema do clima do mundo real.  O primeiro evento considerado, o Máximo Térmico Paleoceno-Eoceno (PETM), foi um rapido aquecimento (5 Cº nos trópicos e até 20 Cº em latitudes mais altas ) que ocorreu 55.8 milhões de anos atrás. O PETM foi provavelmente causado por uma liberação de metano de hidratos submarinos que levaram a uma injeção maciça de carbono na atmosfera (similar em magnitude a eventos atuais, embora em um ritmo muito mais lento). Isto é tema de muitos estudos, mas modelos atuais não podem simular o clima quente que precedeu imediadamente a mudança do clima.O segundo evento discutido foi a transição relativamente recente (9000-5000 anos atrás) do Saara, de um local úmido com vegetação em um deserto, que ocorreu em um período de décadas a séculos. Assim como no PETM, os modelos não conseguem prever a condição inicial - neste caso o verdejamento que ocorreu antes da desertificação, e não podem prever a transição abrupta.O terceiro caso foi uma série de 25 rápidos aumentos de temperatura (de até 8Cº durante poucas décadas) que ocorreram nos ultimos 120 mil anos durante os ciclos climáticos  Dansgaard-Oeschger . Cada um deles começou a partir de um estado globalmente frio e, não completamente entendidos, foram provavelmente causados por um influxo de água doce no Oceano Atlântico. Simulações neste caso conseguiram prever mudança abrupta baseada em relações iniciais realistas, mas tais eventos uma injeção de água que dura mihares de ano, maior eue qualquer coisa considerada realista.O caso final foi o colapso da Atlantic Meridional Overturning Circulation (AMOC) entre 120 mil e 12 mil anos atrás - o AMOC é um sistema de circulação oceânica que transporta, à superfície, águas quentes para Norte e, em profundidade, águas frias para Sul. À medida que a água quente liberta calor para a atmosfera torna-se mais densa e afunda-se. Em profundidade a água fria regressa lentamente para os trópicos. Este processo é igualmente conhecido por circulação termo-halina do Atlântico Norte e contribui para a regulação do clima nas latitudes elevadas. O colapso, que ocorreu durante o curso de seis ciclos conhecidos como eventos Heinrich, foi causado por grandes quantidades de águas de geleiras interromppendo a circulação normal. O AMOC tem papel importante no sistema de clima global, e sua interrupção levou a um rápido resfriamento do Hemisfério Norte (10 Cº em uma questão de anos), informa o Ars Technica. É particularmente importante poder prever este fenômeno, devido ao fato de que o derretimento das geleiras é considerado como um possível efeito do aquecimento atual. Mais uma vez, os modelos correntes, estáveis demais, não conseguiram detectar a possibilidade de eventos rápidos. 
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